Crónica

É uma ave? É um avião? Não!

 

É um concerto rock? Morreu alguém? Não!

Mas que raio de coisa é aquele amontoado de gente na praia à noite?

Na bela noite de 6ª feira dia 30 de Agosto de 2002, ia a conduzir pela Marginal a curtir um som. Ao passar por Oeiras, vindo de Caxias em direcção a Cascais, deparo-me com um amontoado de gente na praia de Oeiras. Tenho a impressão que, nem num fim-de-semana de Verão, nunca se vê tanta gente naquela praia de dia a apanhar o dito "bronze". Se de dia seria de estranhar tanta gente na praia, então à noite ainda mais estranho é.

Seria um concerto à borla de uma banda estrangeira e famosa? Não... faltava o palco com as luzes... Teria acontecido algo? Desliguei o som que ia a curtir, e abri a janela do carro. Estava preparado para tudo, menos para o que ouvi:

- "Milagre, irmãos! O nosso irmão acreditou, e Deus curou!" Ou qualquer coisa deste estilo, com o tradicional sotaque Brasileiro.

A missa do galo é em Agosto, para os fieis da IURD?

Seja como for, e quer se acredite, seja agnóstico, ateu, ou qualquer outra coisa menos "católica"... ;-) é importante observar o fenómeno, e retirar algumas ilações.

A primeira ilação é que, quando as coisas são pagas, as pessoas fazem os possíveis por usar o serviço que pagam. Que o nosso governo coloque os olhos nesta fórmula, e passe a utilizá-la em prol da sociedade.

É saudável que as pessoas apanhem uns banhos de Sol. Se um serviço pago consegue levar tantas pessoas à praia apanhar banhos de Lua, seria desejável que essas mesmas pessoas fossem à praia apanhar banhos de Sol.

Passe então o governo a taxar os fieis... errr... perdão, os contribuintes em 10% dos seus ordenados pelo direito de utilização das nossas praias (os turistas estrangeiros estariam isentos, para não contrariar a nossa política). De certeza que se os Portugueses pagassem o direito de frequentar as praias as usariam com mais frequência.

Vantagens seriam óbvias:

  • Os Portugueses seriam mais saudáveis, o que iria reduzir o orçamento para a Saúde, e diminuir as listas de espera que iria permitir que os verdadeiramente doentes fossem atendidos.
  • E é claro que o défice orçamental seria muito mais fácil de reduzir com este duplo encaixe de 10% a mais de impostos, e redução do orçamento para a Saúde.

A segunda ilação é igual à primeira, só que aplica-se às crenças religiosas. Será que está aqui a solução para a crise de fieis (já que crise financeira só se aplica mesmo ao governo e aos seus contribuintes) da Igreja Católica e similares?

A Igreja Católica tem, assim, duas soluções. Ou mantém a concordata e só serve os privilegiados que têm a sorte de acreditar. Ou desiste da concordata, e passa a cobrar pelo serviço. Parece que as pessoas estão empenhadas em pensar que aquilo que se paga é que é genuíno, e quanto mais caro melhor.

Assim, sugiro que a Igreja Católica passe a cobrar 20% dos rendimentos dos fieis. De certeza que assim todos acreditariam que a Igreja Católica faria milagres mais eficazes que os da IURD. E de certeza que os milagres seriam bem necessários!!! Façamos as contas:

  • 10% para pagar as praias
  • 20% pelos milagres
  • 20% para o IRS
  • 10% para a Segurança Social
  • 20% para a prestação da habitação
  • 50% para a prestação do carro Alemão da moda

Com um aumento mensal do endividamento em cerca de 30%, só mesmo com milagres é que 75% da população portuguesa consegue sobreviver...

Hmmmmm... acho que encontrei a fé!