Crónica

Espírito de Natal

Mais triste a cada Natal que passa.

Cada vez mais comercial, cada vez menos Humano.

À medida que a noite de Natal se aproximava, ia pensando cada vez mais neste assunto.

Cada vez mais, um bom Natal é um Natal com mais e melhores prendas que o do ano anterior. E uma boa prenda é uma prenda cara.

Parece que as pessoas começaram por mostrar a importância que outra pessoa tem para ela consoante o custo da prenda oferecida.

E isto até nem é assim tão problemático quanto isso. O maior problema é que agora as pessoas que recebem já avaliam a sua própria importância pelas prendas que recebem.

Esta parece ser uma era em que as pessoas preferem usar o seu tempo para fazer dinheiro, mostrando depois o seu apreço usando o dinheiro ganho na compra de prendas.

Penso que todos já pensámos, numa dada altura ou noutra, sobre o lado dos interesses financeiros desta questão. O que é certo é que existe um subsídio de Natal, as lojas fazem balanço no final do ano, e segundo a fé Cristã os Reis Magos entregaram as suas ofertas no dia de Reis, e não à meia-noite do dia em que se celebra o nascimento de Jesus Cristo.

Pois... algo não bate certo... já para não falar na história do Pai Natal... que terá surgido porque convém que todos ofereçam (comprem) prendas, mesmo que não sigam a fé Cristã. Muita manipulação...

Assim, prendas por prendas, mais vale que tenham algum significado especial, e tenham valor por esse significado e não por quanto custaram. Mais, que tenham investimento directo de tempo e de toque pessoal.

Basicamente prendas com mensagem, pessoais e com sentimentos.

Este ano lembrei-me de oferecer aos meus amigos prendas com significado. Um objecto simples mas com significado, acompanhado de um postal com uma mensagem pessoal.

Mas isto, mesmo assim, continua a não reflectir todo o verdadeiro espírito do Natal.

Natal é uma época para se estar em família. Ou seja, uma época para nos reunirmos com quem mais amamos.
Isto sim, acaba por ser a base do verdadeiro espírito de Natal.

E sublinho o facto de ser a BASE e não a totalidade do espírito de Natal.

A ideia mais importante a reter nesta época é o amor. Amor por todos os outros, e não apenas pelos que mais nos interessam, seja o interesse legítimo ou não. Legítimo por estarmos com quem amamos, ou nem tanto por estarmos com quem nos ama, e nada por estarmos com quem nos dá prendas...

Pensemos no mundo, e naqueles que precisam. Pensemos naqueles que zelam pelo nosso bem estar nessa época, e que para tal prescindem de estar na companhia de quem amam.

Pensemos nesses, que estão a trabalhar na noite de Natal para que os restantes possam estar em paz com os que amam, desde aqueles que trabalham nas portagens das auto-estradas, até aqueles que zelam pela nossa segurança nas estradas, e principalmente naqueles que salvam vidas nessa noite, desde o condutor de ambulância até ao cirurgião.

Mas ainda mais legítimo é pensar nos que não têm ninguém para amar ou que os ame.

E foi nesse verdadeiro espírito de Natal que uma amiga minha me surpreendeu pela positiva, ao passar os dias 24 e 25 de Dezembro com os sem-abrigo.

Todos os meus desejos para o ano de 2003 são para que estas pessoas, capazes de entrar no verdadeiro espírito de Natal, terem direito a sentirem a felicidade e amor que deram nessa noite especial a quem mais necessitava.

Espero que o verdadeiro espírito de Natal nunca desapareça, e que  o "espírito das prendas" venha a dar lugar a este tipo de sentimentos tão necessários nos dias que correm.